Megaincêndios avançam na Amazônia. E vieram pra ficar

Megaincêndios avançam na Amazônia. E vieram pra ficar

Incêndios com mais de 100 quilômetros quadrados de extensão na floresta tropical úmida não deveriam acontecer, mas estão se tornando cada vez mais frequentes. Estamos preparados?

Reportagem: Sibélia Zanon e Luis Patriani

“Quando eu vejo a floresta queimando, sei que estou vendo nada mais do que a Amazônia morrendo. Eu vejo o fogo e, como cientista, sei o quanto aquele hectare vai perder em termos de indivíduos, qual vai ser a quantidade de carbono emitida e o quanto isso acelera as mudanças climáticas”, conta Erika Berenguer, pesquisadora brasileira da Universidade de Oxford. “Ao mesmo tempo, eu perco uma parte de mim. Minha identidade, enquanto ser humano e cientista, é muito atrelada. Está no chão, na floresta, andando no meio do mato todo dia.”

Berenguer começou a ver incêndios florestais de grande proporção na região de Santarém, oeste do Pará, em outubro deste ano (2023). Repetia-se o mesmo cenário de 2015, quando a cientista presenciou algo semelhante na mesma área.

Segundo seus cálculos, naquela ocasião, 2,5 bilhões de árvores morreram e o volume de gás carbônico lançado na atmosfera foi maior que as emissões de países inteiros, como França e Reino Unido. “Estou vendo tudo aquilo se repetir”, relata a bióloga, diagnosticada com um princípio de pneumonia provocado pelas condições de imersão na fumaça. “E estou olhando para o futuro e pensando que cada vez mais isso vai acontecer, que os megaincêndios não são uma exceção. Vão virar regra.”

Tecnicamente definido como um enorme incêndio florestal que ultrapassa a extensão de 100 quilômetros quadrados e que ocorre na mesma época, na mesma região, sob as mesmas condições climáticas, um megaincêndio não precisa ser necessariamente contínuo – pode ter múltiplos eventos de ignição. Sucede que, na floresta tropical úmida, eles, ao menos em tese, não deveriam estar acontecendo.

Em um bioma caracterizado por grande umidade e por árvores que ultrapassam os 50 metros de altura, o fogo não é espontâneo. Geralmente acidentais, os incêndios florestais na Amazônia ocorrem pelo escape ou descontrole de outros fogos, como queimadas de subsistência, de manejo agropecuário (para limpeza de pasto) ou de desmatamento – este, quase sempre criminoso, subsequente à remoção da floresta para a abertura de novas áreas de pastagem e monocultura ou à especulação imobiliária. Podemos dizer, então, que todo tipo de fogo na floresta amazônica é antrópico, ou seja, provocado por ação humana.

Segundo Jos Barlow, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, há mais de um tipo de incêndio florestal. “Tem o incêndio que acontece quando a floresta queima pela primeira vez: geralmente o fogo é baixo, espalha vagarosamente e pode ser até difícil detectar por satélites. Mas o efeito é muito grande sobre a floresta; ele mata diversas espécies adaptadas para aquele sub-bosque escuro”, explica o pesquisador, que trabalha há duas décadas na Amazônia. “E tem fogos [que surgem] quando a floresta já foi degradada para corte seletivo ou em um fogo anterior. As florestas mais degradadas queimam com mais intensidade, e o fogo anda com mais velocidade.”

A questão é que o fogo na Amazônia não é como em outros biomas. No Cerrado, por exemplo, as árvores têm casca grossa, mais resistentes, e muitas espécies conseguem rebrotar depois de queimar. As árvores amazônicas, no entanto, são revestidas por uma casca mais fina, que não suporta o fogo. O incêndio florestal imprime na Amazônia uma cicatriz. Mas o que acontece quando a marca deixada na floresta ganha megaproporção?

Megaincêndios na Amazônia Legal

Megaincêndios ocorrem quando o fogo, que não é necessariamente contínuo, ultrapassa 100 quilômetros quadrados na mesma época, região e sob as mesmas condições climáticas. Imagens de satélite reunidas pelo MapBiomas (1998, 2005 e 2015) e pelo Laboratório de Ciências Biosféricas do Goddard Space Flight Center, da Nasa (2023), mostram a extensão dos megaincêndios em diferentes estados da Amazônia brasileira nos últimos 25 anos e as principais unidades de conservação atingidas pelo fogo:

  • 1998, Roraima, 1.765 km², Flona de Roraima, Estação Ecológica de Maracá e TI Yanomami;
  • 2005, Acre, 427 km², Resex Chico Mendes;
  • 2015, Maranhão, 2.200 km², TI Arariboia;
  • 2015, Pará, 9.820 km²Flona Tapajós e Resex Tapajós-Arapiuns;
  • 2023, Pará, 2.592 km², Flona Tapajós e Resex Tapajós-Arapiuns

Fogo próximo aos Andes

Em conversa com a equipe de geojornalismo da Ambiental no início de dezembro, Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Goddard Space Flight Center, da Nasa, a agência espacial americana, compartilha sua tela do computador e mostra a multidão de focos de incêndio a leste da Floresta Nacional (Flona) do Tapajós, nas proximidades de Santarém. “É uma área enorme. Estamos falando em 2 mil quilômetros quadrados queimando há um mês e meio”.

Pesquisadores da Rede Amazônia Sustentável (RAS) explicam que as florestas na região de Santarém e na fronteira da Bolívia com os estados brasileiros do Acre e Rondônia estão queimando este ano em proporções tão grandes que o fenômeno pode ser caracterizado como megaincêndio.

“Na Bolívia, estão acontecendo megaincêndios em todas as florestas perto das montanhas dos Andes; está quase tudo queimado”, diz Barlow. “Para ter uma ideia, tem um fogo só com 727 quilômetros quadrados. Um fogo só, mas ele é contínuo com vários outros incêndios, que são enormes também.”

Segundo os cientistas, os megaincêndios têm sido resultado de um ano atípico, em que a incidência do fenômeno El Niño justo no período de maior estiagem causou a seca mais severa dos últimos 40 anos na Amazônia. A isso, soma-se o agravamento das mudanças climáticas, evidenciado pelo aumento da temperatura, a redução na umidade do solo e a diminuição das chuvas. Áreas de floresta degradadas e níveis baixos de rios e lençóis freáticos (como os que aconteceram em 2023), contribuem para facilitar a propagação de incêndios.

“Quando você tem um ano de seca, não importa se pequeno proprietário [de terra] ou grande proprietário, todo mundo perde o controle do fogo”, afirma Liana Anderson, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Você tem uma porcentagem maior de florestas queimadas dentro de grandes propriedades. Isso revela uma vulnerabilidade no meio rural.”

De acordo com o Cemaden, o cenário permanece preocupante até janeiro de 2024. Em dezembro, o El Niño chega ao pico e duas condições favorecem a ocorrência do fogo: a probabilidade menor de chuva e temperaturas mais altas do que a média histórica para o período.

“Para mim, pelo tempo que eu trabalho nessas Flonas, esse ano foi mais intenso do que 2015 e 2016, que foram outros anos de El Niño”, diz Marcos Oliveira, brigadista do ICMBio que está no combate aos incêndios na Flona Tapajós. “Em algumas partes a gente conseguiu controlar e em outras a gente teve que chamar uma brigada de fora para combater o incêndio.”

Artigo que foi capa da revista Science no início de 2023 já apontava que 38% de toda a floresta Amazônica está degradada, ou seja, já mostra perda gradual da vegetação e não presta os mesmos serviços ambientais de uma floresta intacta. Isso significa que a Amazônia está fragilizada para enfrentar eventos climáticos extremos e recorrentes, e seca demais para impedir o avanço do fogo.

Brigadistas do ICMBio arriscam as próprias vidas ao entrar na Floresta Nacional do Tapajós para combater focos de incêndio florestal. Este ano, potencializado pelo fenômeno climático El Niño, o fogo atingiu quase 2.600 quilômetros quadrados na região do Baixo Tapajós. Foto: João Marcos Rosa / NITRO

Árvores doentes

Em uma Amazônia preservada, mesmo em época de seca, os pés andam silenciosos pelo chão. Apesar da secura, a serrapilheira – camada de matéria orgânica sobre o solo – se mantém úmida. É diferente de uma floresta que sofreu um incêndio anterior. “Você anda lá e escuta as folhas: creck creck creck”, descreve Barlow. “É marcante, totalmente diferente. Está muito mais seca e tem muito combustível no chão com todas essas folhas e todos esses galhos das outras árvores que morreram anteriormente.”

O primeiro incêndio florestal em uma determinada área na Amazônia pode matar quase metade das árvores. Durante vários anos depois, as árvores grandes continuam morrendo em decorrência do enfraquecimento causado pelo fogo, mais suscetíveis a doenças, fungos e cupins. Quando caem, matam árvores mais jovens, numa espécie de dominó. Então, um dos efeitos ou cicatrizes na floresta é que ela fica mais aberta – como um queijo suíço, nas palavras de Berenguer.

Observando áreas que queimaram em 2015, no último El Niño, há apenas oito anos, Berenguer diz notar a floresta alterada, com maior número das chamadas árvores pioneiras, que são as primeiras a surgir em áreas degradadas. “São aquelas árvores que crescem até em terrenos baldios, que crescem em qualquer lugar. Entre elas, tem um gênero que é muito comum, que são as embaúbas, que em tupi quer dizer ‘árvore oca’”.

No megaincêndio atual, Berenguer diz observar que também o fogo está diferente. Ele agora está subindo verticalmente. “Nessas áreas com muitas embaúbas, áreas que queimaram no último El Niño [2015], a gente está vendo chamas às vezes de 10 metros de altura. Aparentemente, o fogo viaja muito mais rápido e ganha proporções que a gente até então não conhecia, gerando uma mortalidade ainda maior de indivíduos.”

Acontece que os incêndios florestais não têm ocorrido apenas em florestas anteriormente incendiadas e nem mesmo estão diretamente relacionados ao desmatamento. Pesquisadores alertam que, no momento, qualquer fogo ocasional pode rapidamente sair de controle porque toda a paisagem está inflamável.

“É importante chamar atenção que, em um ano como 2023, a gente tem aumento de incêndios florestais em regiões em que há diminuição de desmatamento”, diz Douglas Morton. “E o motivo disso é que há vasto uso de fogo para outros objetivos”.

Levantamento feito no Acre mostra que extremos climáticos que antes atingiam a região a cada 50 anos agora acontecem todos os anos. E são vários eventos ocorrendo no mesmo ano. “A gente está tendo um colapso de vários eventos ao mesmo tempo com vários danos de grande proporção”, alerta Sonaira Silva, pesquisadora da Universidade Federal do Acre (Ufac). 

Assim como hoje, o megaincêndio de 2015 no Pará não queimou apenas áreas que já haviam sofrido distúrbios, mas também áreas intactas da floresta. Berenguer diz que aquele ano foi uma janela para o futuro, alertando para o fato de que o fogo não conhece mais fronteiras.

Erika Berenguer começou a ver incêndios de grande proporção na região de Santarém, no Pará, em outubro de 2023. A cientista já tinha presenciado algo semelhante na mesma região em 2015, quando, segundo seus cálculos, 2,5 bilhões de árvores morreram e o volume de gás carbônico lançado na atmosfera foi maior que as emissões de países inteiros, como França e Reino Unido. Foto: João Marcos Rosa / NITRO

Evitar que florestas queimem

Especialistas consideram que os dados relacionados ao monitoramento do fogo gerados no Brasil são eficientes. Além dos números oficiais, há também o envolvimento de instituições independentes e iniciativas locais. “A parte da geotecnologia de instituições desenvolvendo esses monitoramentos é algo bem louvável”, considera Liana Anderson.

Quanto mais específicos os dados, melhor para a elaboração de políticas de prevenção. Anderson cita o Calendário do Fogo na Amazônia, onde é possível verificar em qual período da seca cada região amazônica torna-se mais suscetível ao fogo. “Esse tipo de informação é muito importante para pensar no planejamento e na tomada de decisão para fins de ações”, diz.

Entretanto, continua sendo um desafio prevenir o fogo porque grande parte do recurso vai para o combate. Especialistas consideram que seria necessário ter mais funcionários para ficar exclusivamente monitorando as imagens de satélite e, assim, detectar com maior agilidade qualquer indício de incêndio. “O combate faz parte, mas não é uma solução sozinha. É um esparadrapo que cai com o primeiro suor do dia”, diz Barlow. “Temos que achar maneiras para evitar que essas florestas queimem.”

Mais eficaz ainda como prevenção seria fazer como Joaquim Parimé, chefe do Núcleo de Emergências Ambientais e Incêndios Florestais do Ibama em Roraima, que desde 2015 desenvolve um trabalho com indígenas focado no manejo integrado do fogo, na queima prescrita, na queima controlada e na confecção de aceiros em microecossistemas estratégicos. Onde eles atuaram, os incêndios não se repetiram.

“Nas áreas indígenas tem tido um efeito bastante animador. Essas populações resgataram uma ancestralidade do uso do fogo para manejo de paisagem. Eles usam o fogo para a manutenção do ecossistema, usam o fogo como uma ferramenta preservacionista, trabalham com fogo bom, fogo benéfico, fogo protetor.”

Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Oriental e uma das autoras de um documento que foi entregue este ano ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima com o intuito de aprimorar as políticas do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), sugere também a criação de um fundo emergencial para prevenção e combate de incêndios em anos de secas extremas.

“O fundo poderia apoiar as regiões críticas para que eles [agricultores familiares] não colocassem a roça. Uma espécie de defeso, uma bolsa para alimentação num período em que eles não pudessem fazer a roça”, sugere a bióloga. “Depois que o fogo está se alastrando, é muito mais difícil você controlar, e deixa um custo muito grande, tanto em termos ambientais quanto sociais.”

Megaincêndios são difíceis de combater. Além da extensão ser muito grande, o fogo avança para áreas da floresta de difícil acesso. Pode acontecer de eles serem efetivamente apagados somente na próxima temporada de chuvas. “Estamos em campo direto. Não adianta chover quatro dias; um dia depois, já está tudo seco pegando fogo”, conta Ralph Cohen, chefe de brigada do ICMBio na Flona Tapajós. “Tem muita área indígena, muitas comunidades. A gente está trabalhando na proteção a essas áreas. E o fogo esse ano foi muito intenso. Muito, muito intenso.”

Em vez de ter medo do fogo, Cohen diz ter medo de perder a floresta. Cobras, preguiças, quatis e jabutis são os animais que ele mais encontra em agonia. “A gente encontra muitos animais mesmo. A gente encontra tentando fugir, morto, machucado. É de partir o coração”.

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Na Reserva Extrativista Arapiuns-Tapajós, no Pará, comunidades locais discutem o problema do uso do fogo no roçado tradicional com cientistas de diversas instituições do Brasil e do exterior, como parte do Projeto Sem-Flama, desenvolvido entre 2019 e 2023. “O fogo nessa região tem causas ambientais e sociais, por isso, queremos construir soluções junto com as comunidades”, relata Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental.  Foto: Flavio Forner / Ambiental Media.

Décadas de megaincêndios

Incêndios de grandes proporções dizimam a biodiversidade e desafiam o paradigma de que florestas tropicais úmidas não estariam sujeitas ao fogo espontâneo. No entanto, esses episódios que põem em xeque a capacidade de resiliência da natureza vêm acontecendo na Amazônia ao menos desde os anos 1990, revelando uma inércia assustadora do poder público diante da crise ambiental que se anuncia há muito tempo.

Nossa reportagem destaca três megaincêndios desde então — em Roraima, Maranhão e Pará — e os depoimentos de quem viu a tragédia de perto. São histórias dramáticas que mostram como o fogo carboniza árvores e incinera a esperança de manter a maior floresta tropical do planeta de pé.

Roraima, 1998

Entre 1997 e 1998, um megaincêndio queimou aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados, ou 800 mil hectares, de florestas densas e não densas no centro-oeste de Roraima, pulverizando a mata. Resultado da combinação entre o El Niño e da falta de ações preventivas, como a abertura de aceiros — valas nos roçados para evitar a propagação do fogo —, o incêndio chocou o mundo com imagens de uma Amazônia consumida por uma linha de chamas que chegava a 400 quilômetros de extensão. Francisco Wilson Pequeno esteve na linha de frente do combate ao fogo.

Desolação após o inferno

Francisco Wilson Pequeno, agente ambiental do Ibama

Roraima

“Recuperar o que era antes não recupera, isso te garanto.”

Agente ambiental desde a época do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que depois deu lugar ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), Francisco Wilson Pequeno, 64 anos, viveu o inferno de 1998. “Não dá para esquecer. Meu trabalho era fiscalizar os proprietários rurais. E pedia pelo amor de Deus pra não botarem fogo em roça e esperar o incêndio acabar. Nossa preocupação não era penalizar ninguém, nossa preocupação era orientar. Estava todo mundo no mesmo barco.”

À procura de moradores em risco, Pequeno colocava sua própria vida em jogo, pernoitando na mata e circulando em estradas sem saída. “Muitas vezes, nós entrávamos em uma estrada vicinal e escolhíamos um lugar para dormir de onde avistássemos a linha de fogo. E eu ficava preocupado pensando se iríamos conseguir sair dali. Essas vicinais são criadas para acessar os assentamentos e várias não tinham ligação com outra estrada. Você entrava e tinha que voltar pelo mesmo caminho. Circulávamos com medo de ficar ilhados. Muitas vezes a gente passava e não tinha fogo e, quando retornava, as árvores estavam em chamas. Íamos com motosserra para retirar os paus que caíam no meio da via como tochas. Era desesperador.” 

Chefe à época do posto de fiscalização do Ibama no município de Caracaraí, Pequeno foi testemunha ocular de como o incêndio, que começou no final de 1997, foi se abrindo em curva como um arco até atingir o território Yanomami, próximo aos rios Apiú e Mucajaí. Despreparados, tanto o órgão ambiental quanto os soldados do corpo de bombeiros e do Exército foram pegos de surpresa pelo fogo descontrolado e tiveram que pedir ajuda externa. 

“Foi o maior incêndio florestal do Brasil. Tivemos apoio de bombeiros da Argentina, do Chile e também de outros estados, como Ceará e Maranhão. E Caracaraí foi base para esse povo. Tinha muito movimento. Eu lembro dos sérios problemas de respiração que afetaram a todos, das pessoas da cidade até as comunidades indígenas Yanomami. Havia muita fumaça. À noite, não se conseguia dormir direito. E, quando a gente acordava, ao lavar o rosto, saía uma coisa suja do nariz, uma fuligem preta. Era angustiante.”

O local exato e a causa do primeiro foco nunca foram descobertos, mas, de acordo com relatos, o incêndio deve ter sido iniciado a partir da queima da roça em uma pequena propriedade agropecuária ou em assentamentos do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra). O vento forte, a falta de conhecimento no manejo do fogo e até peculiaridades morfológicas da flora local foram os pivôs no alastramento das chamas.

 “Algumas pessoas não têm conhecimento da Amazônia. O cara vai lá, faz o aceiro bonitinho, queima o roçado, mas não presta atenção e aquilo continua queimando. Na época de seca é um perigo. Um vento mais forte, e pode se alastrar. Vou dar um exemplo. O pé de angelim-ferro tem raízes muito profundas, que podem queimar até sete dias por baixo da terra sem chamar a atenção de ninguém. Você olha por cima e não tem fumaça. Ou então o camarada está combatendo um foco de queimada, pensa que apagou, mas não faz um rescaldo direitinho. Se tiver um toco caído em brasa, é o suficiente para fazer ressurgir o fogo.”

O relatório do impacto dos incêndios de 1998 feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) destaca, além da falta de aceiros, a umidade do ar muito baixa – 35% – naquele ano e o combate tardio aos focos como agravantes importantes. “Presenciei uma coisa que só quem estava lá poderia acreditar. Combatíamos um foco de incêndio e ficamos na estrada para impedir que cruzasse a estrada. Tinha uma palmeira que estava queimando a mais de 200 metros de distância da gente e, de repente, uma bola de fogo saiu voando e veio em cima do meu carro. O fogo propaga. Pode ter aceiro, mas ele passa por cima. Uma situação como aquela, marcada pela seca, ventania e sol escaldante, nem uma vala de 100 metros ia resolver. Somente Deus e chuva.”

O pós-incêndio, por sua vez, se mostrou desolador, conforme relata Pequeno. “Recuperar o que era antes não recupera, isso te garanto. Não volta a ser o que foi. Estou na Amazônia há mais de 40 anos. Quando você entra numa área de floresta sem alteração, dá para andar o dia inteiro. Mas não se consegue caminhar numa região onde ocorreu o fogo. Nasce muito cipó, mesmo quando é só um fogo rasteiro. A perda da biodiversidade naquele trecho é enorme.”

Fumaça na floresta e no corpo

Joaquim Parimé, chefe do Núcleo de Emergências Ambientais e Incêndios Florestais do Ibama

Roraima

“Respirávamos fumaça, cheirávamos a fumaça. Éramos como um pedacinho de carvão ambulante.”

Joaquim Parimé, 54 anos, cresceu em uma região de savana, também devastada no megaincêndio de 1998. Especialista no resgate ancestral do uso do fogo controlado para manejo de paisagem em Terras Indígenas, o atual chefe do Núcleo de Emergências Ambientais e Incêndios Florestais do Ibama no estado aprendeu desde pequeno como o mesmo fogo que destrói pode ser usado de forma preservacionista.

“Quando eu era criança, parecia que já pressentia que iria trabalhar com fogo. Os fazendeiros e indígenas antigos, principalmente os que viviam na savana, faziam queima, até porque é um ambiente adaptado ao fogo. Mas eles faziam queimas prescritas, queimas técnicas no início da estação seca. Queimavam visando a não ocorrência de incêndios no período seco crítico”.

Nascido na capital Boa Vista e criado até os 8 anos de idade no limite entre os municípios de Uiramutã e Normandia, na região do rio Cotingo, Parimé lembra da desolação ao ver incendiada e devastada a savana onde brincava em sua infância. “Morava em uma região ocupada por propriedades particulares que foram indenizadas para criar a Terra Indígena Raposa do Sol. E foi tudo destruído pelo grande incêndio de 1998. Sobraram apenas poucas matinhas de galeria e alguns pontos que o fogo ancorava em uma região rochosa ou num curso d’água mais largo.”

Assim como na atual estiagem que acomete a Amazônia, a região afetada pelo grande incêndio de 1998 estava sob influência do El Niño e sofria há dois anos com os efeitos de uma seca prolongada. No início do ano, quando as queimadas se instalaram, as linhas de fogo se mostravam gigantescas. Há relatos de alguns pontos da área de savana onde uma única linha, ou seja, só uma cabeça de incêndio, chegava a até 40 quilômetros de extensão.

Sem forças, a vegetação desidratada e transformada em combustível se dobrava em chamas sobre um lençol freático rebaixado. “A tragédia não teve nenhuma causa natural. As origens sempre foram antrópicas. Respirávamos fumaça, cheirávamos a fumaça. Eu me sentia defumado, todos os habitantes que moravam aqui criaram uma camada de defumação. Éramos como um pedacinho de carvão ambulante. A rede hospitalar ficou sobrecarregada, principalmente por crianças e idosos com doenças respiratórias.”

De acordo com Parimé, o fogo migrou da região de savana para áreas de floresta, atingindo principalmente as matas de transição, que fazem o contato entre o lavrado (savana) e as áreas de floresta.

 “O maior choque que se teve na época foi entender que a floresta, desde que perturbada, está propensa a incêndios. O paradigma de que a floresta úmida não queima foi quebrado. O fogo não é uma exclusividade do Cerrado, do Pantanal, de regiões campestres, de regiões abertas, ou de florestas de coníferas. A Floresta Amazônica queima, sim. É só alterá-la por meio da construção de estradas, da colonização e de frentes de expansão agrícola.”

Feito o estrago, regenerar o bioma original é praticamente impossível. Ocorrido há 25 anos, o incêndio deixou para trás um rastro de destruição que moldou a nova paisagem.

“Se visitarmos as regiões queimadas, principalmente nas áreas de florestas de transição, que têm uma altura menor, elas não se recuperaram. Há morros que foram reflorestados e criaram apenas uma vegetação de samambaias e plantas pioneiras que ainda estão do mesmo jeito.”

O grande incêndio de 1998 serviu, ao menos, como aprendizado em relação à prevenção e ao combate de incêndios florestais no Brasil. Foi a partir dele que houve um fortalecimento das estruturas federais, a exemplo do Prevfogo, ligado ao Ibama, que foi encorpado com qualificação técnica, equipamentos e insumos, assim como o Inpe, que passou a fazer registros de focos de calor.

“Nas Terras Indígenas onde eu trabalho também houve um grande fortalecimento e nelas existem sete brigadas. A primeira criada no Brasil foi feita em 2008 na Terra Indígena São Marcos, onde já vão para o décimo-quinto ano de contrato conosco.”

Maranhão, 2015

Promovida por madeireiros ilegais, uma queimada no noroeste do Maranhão em 2015 se transformou em um desastre ambiental na Terra Indígena Araribóia – habitada pelos Guajajara e pelo povo nômade Awá-Guajá, que vive isolado.

Em pouco tempo, as chamas carbonizaram 220 mil hectares de florestas — número que corresponde à metade dos 450 mil hectares da reserva indígena. A Amazônia naquele local sucumbiu em questão de dias.

Inércia e extração ilegal de madeira

Olímpio Iwyramu Guajajara, presidente da Associação Kaiuara dos Guardiões da Floresta

Maranhão

“O fogo queimou árvores que armazenavam água, como o cajá, a sumaúma.”

Presidente da Associação Kaiuara dos Guardiões da Floresta, criada em 2012 para coibir a ação de madeireiros, Olímpio Iwyramu Guajajara, 48 anos, viu como a extração ilegal e a inércia do governo transformaram em cinzas a expectativa de vida de seu povo. “O desmatamento estava muito avançado dentro de Arariboia. E a grande queimada de 2015 começou justamente no sul da Terra Indígena. Naquela região, estava tudo empesteado de madeireiros e caçadores.”

Com o alarme dado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), ironicamente em 21 de setembro, Dia da Árvore, o incêndio, conforme imagens de satélite do Greenpeace, teria começado 50 dias antes. “Ninguém estava articulado para o combate. Quando o apoio chegou, já havia uma extensão de mais de 60 quilômetros de fogo. Se [o combate] tivesse chegado antes, a gente não tinha tido tanto impacto.”

Na ocasião, o líder dos Guardiões da Floresta, acompanhado de Sônia Guajajara, à época coordenadora da Apib, foi até Brasília protestar e pedir ajuda para, pelo menos, retardar o incêndio. Em depoimento à imprensa na época, a atual ministra dos Povos Indígenas do Brasil apontou como o episódio revelou a inoperância e a falta de preparo do governo para atuar em emergências. “As instituições estão brigando entre si e não conseguem ter uma estratégia efetiva”, disse na ocasião. 

Sem ter pra onde correr, os Awá-Guajá isolados, segundo Olímpio, se viram sem fonte de água e alimentos por conta da destruição da mata após o megaincêndio. E sofrem as consequências até hoje. “O fogo queimou árvores que armazenavam água, como o cajá, a sumaúma, que chamamos aqui de barriguda, o mucunã. Jatobá e sapucaia, fonte de alimentos para os Awá, os madeireiros carregaram quase tudo. Por isso eles estão encostando perto das aldeias Guajajara, procurando água e comida dentro das nossas roças. A situação está difícil e preocupante porque a imunidade deles é muito sensível.”

Sabedor dos direitos indígenas garantidos pela Constituição Federal, o líder Guajajara se mostra indignado com o Estado brasileiro. “Em 1991, a nossa terra foi homologada, registrada, e aí o governo amarrou o pano na cara, tapou os ouvidos e se fez de cego, surdo e mudo. Todas as madeiras nobres foram roubadas. São preconceituosos, racistas e cúmplices. Por isso que esse incêndio criminoso e violento avançou dentro da terra Araribóia”.

Quanto ao sistema judicial, o ativista rastreador de madeireiros não tem meias palavras. “É muito difícil defender os indígenas na Justiça brasileira. É como enxugar gelo. Até hoje não tivemos respostas da investigação desse crime ambiental, um incêndio criminoso e cruel. E quando nos levantamos para defender, somos discriminados e vistos como milícias.”

Felizmente, depois de 2015, não houve mais grandes queimadas em Araribóia. “A gente trabalhou muito na questão de sensibilização e educação ambiental. Nós trabalhamos voluntariamente para o planeta. Os Guardiões da Floresta foram um divisor de águas.”

Vontade de desistir

Luan Souza Silva Guajajara, chefe da brigada Lagoa Comprida

Maranhão

“O fogo estava doido, acabando com tudo. Pau caindo de cima, bicho morrendo.”

Luan Souza Silva Guajajara, 32 anos, era chefe da brigada Lagoa Comprida, uma das cinco unidades de combate a incêndios da Terra Indígena Araribóia, quando pensou em desistir da profissão ao se deparar com as proporções e o sofrimento causado pelo megaincêndio de 2015. “Eu trabalhava como brigadista na aldeia Juçaral e, de repente, começou a estocar fogo para todo lado. Fomos acionados para avançar até a base na aldeia Guaruhu, mas o incêndio estava fora de controle. Definiram a operação como nível 3, a escala mais alta de gravidade, e chamaram bombeiros de outros estados.”

A rotina da operação, que durou quase dois meses, ficou pesada para o jovem combatente. De cima, um helicóptero jogava uma substância química para retardar as chamas, enquanto embaixo os brigadistas enfrentavam os focos no sentido das bordas até a cabeça do fogo, onde o incêndio é maior. “A gente ia comendo pelas beiradas. Usávamos foice, facão e motosserra, mas naquela época não tinha a estrutura de combate e prevenção igual a hoje.”

Certo dia, Luan cortava um pau com a motosserra e de repente ouviu um pessoal do Exército gritando seu nome de longe. Sua reação foi pular imediatamente para a frente ao intuir que um tronco de outra árvore desabava por trás; isso o salvou. “Caiu bem onde eu estava e arrancou a bota do meu pé. Se pega em cheio, tinha acabado comigo. Se tivesse olhado para trás, não estaria aqui contando a história. O ipê quase me mata lá. Na hora, entrei em desespero e comecei a chorar. Vi a morte e lembrei da minha esposa, que estava grávida do meu primeiro filho.”

Traumatizado, Luan decidiu pedir demissão. “Não dava mais. O fogo estava doido, acabando com tudo. Muito intenso, muito perigoso, pau caindo de cima, bicho morrendo. Foi loucura aqui em Araribóia no ano de 2015.”

Passado o susto, o brigadista Guajajara foi convencido a ficar pelo comandante da operação. “Peguei uma folga de sete dias e voltei ao combate. Eu gosto de trabalhar protegendo nossa mata, nosso bioma.” A persistência em ficar lhe rendeu dias depois um dos momentos mais incríveis de sua vida ao se deparar com os misteriosos Awá-Guajá tentando apagar o incêndio no interior da selva em chamas. “Naquele momento, passou um filme na minha cabeça. Já havia visto vestígio deles, mas nunca tinha chegado tão perto.”

O encontro, como não poderia deixar de ser, se mostrou tenso. “Quando eles nos viram, correram para trás e nós também recuamos. No outro dia a gente voltou. Deixamos lá umas foices e dez litros de água.” Ao informar o comando por rádio sobre o encontro, os brigadistas foram orientados a sair do local de helicóptero, seguindo determinação da Funai, que proíbe qualquer contato com indígenas isolados.

Floresta Nacional do Tapajós, 2015

Em fevereiro de 2015, uma enorme nuvem preta sobre a região da Floresta Nacional do Tapajós, no oeste do Pará, não deixava nenhuma dúvida no ar. Potencializados por fortes ventos e uma estiagem sem precedentes, os focos de incêndio se alastraram em áreas de difícil acesso da Flona, destruindo metade dos 549 mil hectares da Unidade de Conservação situada às margens do rio Tapajós.

Amazônia não é mais a mesma

Oswaldo dos Santos Pereira, seu Vavá, líder da comunidade do Branco

Pará

“A floresta, quando queima, depois nasce muito mato diferente, que são mais chamativos de fogo.”

De sua casa, Oswaldo dos Santos Pereira, 65 anos, assistiu atônito à densa fumaça que subia aos céus e invadia seus pulmões. “O fogo nasceu lá na beira do rio e veio subindo até varar na BR-163, que liga Cuiabá a Santarém, atrás da Flona. Quando dava três, quatro horas da tarde, ficava tudo tomado de fumaça. Estava difícil respirar.”

Líder da comunidade do Branco há muitos anos, seu Vavá, como é conhecido, recorda: “a Amazônia era uma floresta úmida. Mas de uns tempos para cá parece que o verão está mais quente, mais demorado. Eu tenho uma lembrança de quando era criança, quando chovia mais. Podia passar uns 15 dias, 20 dias sem cair uma gota de água, mas depois chovia de novo.”

Naquele triste ano de 2015, a seca durou um bocado: foram 90 dias de estiagem. Chamado de verão amazônico, que dura normalmente até novembro, o período de estiagem se alongou até março do ano seguinte por conta de mais um forte episódio de El Niño. “Ficamos muito tristes pela floresta. Morreu muita árvore. Ainda hoje, quando dá um vento, elas caem mortas.”

Entrevistado pela nossa reportagem antes do megaincêndio deste ano, seu Vavá já se dizia amedrontado diante da possibilidade de um incêndio pior que o de 2015. “A floresta, quando queima, depois nasce muito mato diferente, que são mais chamativos de fogo. Nasce taboca, nasce cipó, nasce capim, que a gente chama de tiririca. É um capim que corta. Não é bom nem falar uma coisa dessa. O negócio vai ficar bem difícil.”

O colega que não volta mais

Renê Menezes de Freitas, ex-brigadista

Pará

“Só vi quando ele caiu desmaiado. Meu colega veio a óbito. Nunca esqueço dessa cena.”

O ex-brigadista Renê Menezes de Freitas, 28 anos, sobrinho do seu Vavá, sentiu a morte de perto no grande incêndio de 2015. Então novato entre os brigadistas, Freitas combatia o fogo por baixo com motosserras, bombas d’água e abafadores, mas via o incêndio passando no alto pela copa das árvores. “Foi uma experiência impactante e vai ficar marcada na minha vida para sempre. Tinha pena dos animais. Estavam indefesos. Vi muito jabuti morrendo com o pescoço arriado. E um tanto de outros bichos. Veados, cobras, aves, cotias. Até as onças, que são ligeiras, eu dava de cara com elas acuadas atrás das árvores.”

Estressado em um cenário de desespero, o ribeirinho que brincava na Flona quando era criança saía às 4 da manhã para combater as chamas e não tinha hora para voltar. No momento mais dramático de sua vida, o ex-brigadista viu um colega morrer na sua frente sufocado pela fumaça. “Teve um dia que estava com um brigadista chamado Oziel do meu lado. Eu serrando os paus que estavam fumaçando e jogando para onde não tinha mais risco. De repente só vi quando ele caiu desmaiado. Chamei ajuda e o levamos para a viatura, que o conduziu ao hospital. Infelizmente meu colega veio a óbito. Nunca esqueço dessa cena.”

Roraima, 1998

Entre 1997 e 1998, um megaincêndio queimou aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados, ou 800 mil hectares, de florestas densas e não densas no centro-oeste de Roraima, pulverizando a mata. Resultado da combinação entre o El Niño e da falta de ações preventivas, como a abertura de aceiros — valas nos roçados para evitar a propagação do fogo —, o incêndio chocou o mundo com imagens de uma Amazônia consumida por uma linha de chamas que chegava a 400 quilômetros de extensão. Francisco Wilson Pequeno esteve na linha de frente do combate ao fogo.

Desolação após o inferno

Francisco Wilson Pequeno, agente ambiental do Ibama

Roraima

“Recuperar o que era antes não recupera, isso te garanto.”

Agente ambiental desde a época do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que depois deu lugar ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), Francisco Wilson Pequeno, 64 anos, viveu o inferno de 1998. “Não dá para esquecer. Meu trabalho era fiscalizar os proprietários rurais. E pedia pelo amor de Deus pra não botarem fogo em roça e esperar o incêndio acabar. Nossa preocupação não era penalizar ninguém, nossa preocupação era orientar. Estava todo mundo no mesmo barco.”

À procura de moradores em risco, Pequeno colocava sua própria vida em jogo, pernoitando na mata e circulando em estradas sem saída. “Muitas vezes, nós entrávamos em uma estrada vicinal e escolhíamos um lugar para dormir de onde avistássemos a linha de fogo. E eu ficava preocupado pensando se iríamos conseguir sair dali. Essas vicinais são criadas para acessar os assentamentos e várias não tinham ligação com outra estrada. Você entrava e tinha que voltar pelo mesmo caminho. Circulávamos com medo de ficar ilhados. Muitas vezes a gente passava e não tinha fogo e, quando retornava, as árvores estavam em chamas. Íamos com motosserra para retirar os paus que caíam no meio da via como tochas. Era desesperador.” 

Chefe à época do posto de fiscalização do Ibama no município de Caracaraí, Pequeno foi testemunha ocular de como o incêndio, que começou no final de 1997, foi se abrindo em curva como um arco até atingir o território Yanomami, próximo aos rios Apiú e Mucajaí. Despreparados, tanto o órgão ambiental quanto os soldados do corpo de bombeiros e do Exército foram pegos de surpresa pelo fogo descontrolado e tiveram que pedir ajuda externa. 

“Foi o maior incêndio florestal do Brasil. Tivemos apoio de bombeiros da Argentina, do Chile e também de outros estados, como Ceará e Maranhão. E Caracaraí foi base para esse povo. Tinha muito movimento. Eu lembro dos sérios problemas de respiração que afetaram a todos, das pessoas da cidade até as comunidades indígenas Yanomami. Havia muita fumaça. À noite, não se conseguia dormir direito. E, quando a gente acordava, ao lavar o rosto, saía uma coisa suja do nariz, uma fuligem preta. Era angustiante.”

O local exato e a causa do primeiro foco nunca foram descobertos, mas, de acordo com relatos, o incêndio deve ter sido iniciado a partir da queima da roça em uma pequena propriedade agropecuária ou em assentamentos do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra). O vento forte, a falta de conhecimento no manejo do fogo e até peculiaridades morfológicas da flora local foram os pivôs no alastramento das chamas.

 “Algumas pessoas não têm conhecimento da Amazônia. O cara vai lá, faz o aceiro bonitinho, queima o roçado, mas não presta atenção e aquilo continua queimando. Na época de seca é um perigo. Um vento mais forte, e pode se alastrar. Vou dar um exemplo. O pé de angelim-ferro tem raízes muito profundas, que podem queimar até sete dias por baixo da terra sem chamar a atenção de ninguém. Você olha por cima e não tem fumaça. Ou então o camarada está combatendo um foco de queimada, pensa que apagou, mas não faz um rescaldo direitinho. Se tiver um toco caído em brasa, é o suficiente para fazer ressurgir o fogo.”

O relatório do impacto dos incêndios de 1998 feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) destaca, além da falta de aceiros, a umidade do ar muito baixa – 35% – naquele ano e o combate tardio aos focos como agravantes importantes. “Presenciei uma coisa que só quem estava lá poderia acreditar. Combatíamos um foco de incêndio e ficamos na estrada para impedir que cruzasse a estrada. Tinha uma palmeira que estava queimando a mais de 200 metros de distância da gente e, de repente, uma bola de fogo saiu voando e veio em cima do meu carro. O fogo propaga. Pode ter aceiro, mas ele passa por cima. Uma situação como aquela, marcada pela seca, ventania e sol escaldante, nem uma vala de 100 metros ia resolver. Somente Deus e chuva.”

O pós-incêndio, por sua vez, se mostrou desolador, conforme relata Pequeno. “Recuperar o que era antes não recupera, isso te garanto. Não volta a ser o que foi. Estou na Amazônia há mais de 40 anos. Quando você entra numa área de floresta sem alteração, dá para andar o dia inteiro. Mas não se consegue caminhar numa região onde ocorreu o fogo. Nasce muito cipó, mesmo quando é só um fogo rasteiro. A perda da biodiversidade naquele trecho é enorme.”

Fumaça na floresta e no corpo

Joaquim Parimé, chefe do Núcleo de Emergências Ambientais e Incêndios Florestais do Ibama

Roraima

“Respirávamos fumaça, cheirávamos a fumaça. Éramos como um pedacinho de carvão ambulante.”

Joaquim Parimé, 54 anos, cresceu em uma região de savana, também devastada no megaincêndio de 1998. Especialista no resgate ancestral do uso do fogo controlado para manejo de paisagem em Terras Indígenas, o atual chefe do Núcleo de Emergências Ambientais e Incêndios Florestais do Ibama no estado aprendeu desde pequeno como o mesmo fogo que destrói pode ser usado de forma preservacionista.

“Quando eu era criança, parecia que já pressentia que iria trabalhar com fogo. Os fazendeiros e indígenas antigos, principalmente os que viviam na savana, faziam queima, até porque é um ambiente adaptado ao fogo. Mas eles faziam queimas prescritas, queimas técnicas no início da estação seca. Queimavam visando a não ocorrência de incêndios no período seco crítico”.

Nascido na capital Boa Vista e criado até os 8 anos de idade no limite entre os municípios de Uiramutã e Normandia, na região do rio Cotingo, Parimé lembra da desolação ao ver incendiada e devastada a savana onde brincava em sua infância. “Morava em uma região ocupada por propriedades particulares que foram indenizadas para criar a Terra Indígena Raposa do Sol. E foi tudo destruído pelo grande incêndio de 1998. Sobraram apenas poucas matinhas de galeria e alguns pontos que o fogo ancorava em uma região rochosa ou num curso d’água mais largo.”

Assim como na atual estiagem que acomete a Amazônia, a região afetada pelo grande incêndio de 1998 estava sob influência do El Niño e sofria há dois anos com os efeitos de uma seca prolongada. No início do ano, quando as queimadas se instalaram, as linhas de fogo se mostravam gigantescas. Há relatos de alguns pontos da área de savana onde uma única linha, ou seja, só uma cabeça de incêndio, chegava a até 40 quilômetros de extensão.

Sem forças, a vegetação desidratada e transformada em combustível se dobrava em chamas sobre um lençol freático rebaixado. “A tragédia não teve nenhuma causa natural. As origens sempre foram antrópicas. Respirávamos fumaça, cheirávamos a fumaça. Eu me sentia defumado, todos os habitantes que moravam aqui criaram uma camada de defumação. Éramos como um pedacinho de carvão ambulante. A rede hospitalar ficou sobrecarregada, principalmente por crianças e idosos com doenças respiratórias.”

De acordo com Parimé, o fogo migrou da região de savana para áreas de floresta, atingindo principalmente as matas de transição, que fazem o contato entre o lavrado (savana) e as áreas de floresta.

 “O maior choque que se teve na época foi entender que a floresta, desde que perturbada, está propensa a incêndios. O paradigma de que a floresta úmida não queima foi quebrado. O fogo não é uma exclusividade do Cerrado, do Pantanal, de regiões campestres, de regiões abertas, ou de florestas de coníferas. A Floresta Amazônica queima, sim. É só alterá-la por meio da construção de estradas, da colonização e de frentes de expansão agrícola.”

Feito o estrago, regenerar o bioma original é praticamente impossível. Ocorrido há 25 anos, o incêndio deixou para trás um rastro de destruição que moldou a nova paisagem.

“Se visitarmos as regiões queimadas, principalmente nas áreas de florestas de transição, que têm uma altura menor, elas não se recuperaram. Há morros que foram reflorestados e criaram apenas uma vegetação de samambaias e plantas pioneiras que ainda estão do mesmo jeito.”

O grande incêndio de 1998 serviu, ao menos, como aprendizado em relação à prevenção e ao combate de incêndios florestais no Brasil. Foi a partir dele que houve um fortalecimento das estruturas federais, a exemplo do Prevfogo, ligado ao Ibama, que foi encorpado com qualificação técnica, equipamentos e insumos, assim como o Inpe, que passou a fazer registros de focos de calor.

“Nas Terras Indígenas onde eu trabalho também houve um grande fortalecimento e nelas existem sete brigadas. A primeira criada no Brasil foi feita em 2008 na Terra Indígena São Marcos, onde já vão para o décimo-quinto ano de contrato conosco.”

Maranhão, 2015

Promovida por madeireiros ilegais, uma queimada no noroeste do Maranhão em 2015 se transformou em um desastre ambiental na Terra Indígena Araribóia – habitada pelos Guajajara e pelo povo nômade Awá-Guajá, que vive isolado.

Em pouco tempo, as chamas carbonizaram 220 mil hectares de florestas — número que corresponde à metade dos 450 mil hectares da reserva indígena. A Amazônia naquele local sucumbiu em questão de dias.

Inércia e extração ilegal de madeira

Olímpio Iwyramu Guajajara, presidente da Associação Kaiuara dos Guardiões da Floresta

Maranhão

“O fogo queimou árvores que armazenavam água, como o cajá, a sumaúma.”

Presidente da Associação Kaiuara dos Guardiões da Floresta, criada em 2012 para coibir a ação de madeireiros, Olímpio Iwyramu Guajajara, 48 anos, viu como a extração ilegal e a inércia do governo transformaram em cinzas a expectativa de vida de seu povo. “O desmatamento estava muito avançado dentro de Arariboia. E a grande queimada de 2015 começou justamente no sul da Terra Indígena. Naquela região, estava tudo empesteado de madeireiros e caçadores.”

Com o alarme dado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), ironicamente em 21 de setembro, Dia da Árvore, o incêndio, conforme imagens de satélite do Greenpeace, teria começado 50 dias antes. “Ninguém estava articulado para o combate. Quando o apoio chegou, já havia uma extensão de mais de 60 quilômetros de fogo. Se [o combate] tivesse chegado antes, a gente não tinha tido tanto impacto.”

Na ocasião, o líder dos Guardiões da Floresta, acompanhado de Sônia Guajajara, à época coordenadora da Apib, foi até Brasília protestar e pedir ajuda para, pelo menos, retardar o incêndio. Em depoimento à imprensa na época, a atual ministra dos Povos Indígenas do Brasil apontou como o episódio revelou a inoperância e a falta de preparo do governo para atuar em emergências. “As instituições estão brigando entre si e não conseguem ter uma estratégia efetiva”, disse na ocasião. 

Sem ter pra onde correr, os Awá-Guajá isolados, segundo Olímpio, se viram sem fonte de água e alimentos por conta da destruição da mata após o megaincêndio. E sofrem as consequências até hoje. “O fogo queimou árvores que armazenavam água, como o cajá, a sumaúma, que chamamos aqui de barriguda, o mucunã. Jatobá e sapucaia, fonte de alimentos para os Awá, os madeireiros carregaram quase tudo. Por isso eles estão encostando perto das aldeias Guajajara, procurando água e comida dentro das nossas roças. A situação está difícil e preocupante porque a imunidade deles é muito sensível.”

Sabedor dos direitos indígenas garantidos pela Constituição Federal, o líder Guajajara se mostra indignado com o Estado brasileiro. “Em 1991, a nossa terra foi homologada, registrada, e aí o governo amarrou o pano na cara, tapou os ouvidos e se fez de cego, surdo e mudo. Todas as madeiras nobres foram roubadas. São preconceituosos, racistas e cúmplices. Por isso que esse incêndio criminoso e violento avançou dentro da terra Araribóia”.

Quanto ao sistema judicial, o ativista rastreador de madeireiros não tem meias palavras. “É muito difícil defender os indígenas na Justiça brasileira. É como enxugar gelo. Até hoje não tivemos respostas da investigação desse crime ambiental, um incêndio criminoso e cruel. E quando nos levantamos para defender, somos discriminados e vistos como milícias.”

Felizmente, depois de 2015, não houve mais grandes queimadas em Araribóia. “A gente trabalhou muito na questão de sensibilização e educação ambiental. Nós trabalhamos voluntariamente para o planeta. Os Guardiões da Floresta foram um divisor de águas.”

Vontade de desistir

Luan Souza Silva Guajajara, chefe da brigada Lagoa Comprida

Maranhão

“O fogo estava doido, acabando com tudo. Pau caindo de cima, bicho morrendo.”

Luan Souza Silva Guajajara, 32 anos, era chefe da brigada Lagoa Comprida, uma das cinco unidades de combate a incêndios da Terra Indígena Araribóia, quando pensou em desistir da profissão ao se deparar com as proporções e o sofrimento causado pelo megaincêndio de 2015. “Eu trabalhava como brigadista na aldeia Juçaral e, de repente, começou a estocar fogo para todo lado. Fomos acionados para avançar até a base na aldeia Guaruhu, mas o incêndio estava fora de controle. Definiram a operação como nível 3, a escala mais alta de gravidade, e chamaram bombeiros de outros estados.”

A rotina da operação, que durou quase dois meses, ficou pesada para o jovem combatente. De cima, um helicóptero jogava uma substância química para retardar as chamas, enquanto embaixo os brigadistas enfrentavam os focos no sentido das bordas até a cabeça do fogo, onde o incêndio é maior. “A gente ia comendo pelas beiradas. Usávamos foice, facão e motosserra, mas naquela época não tinha a estrutura de combate e prevenção igual a hoje.”

Certo dia, Luan cortava um pau com a motosserra e de repente ouviu um pessoal do Exército gritando seu nome de longe. Sua reação foi pular imediatamente para a frente ao intuir que um tronco de outra árvore desabava por trás; isso o salvou. “Caiu bem onde eu estava e arrancou a bota do meu pé. Se pega em cheio, tinha acabado comigo. Se tivesse olhado para trás, não estaria aqui contando a história. O ipê quase me mata lá. Na hora, entrei em desespero e comecei a chorar. Vi a morte e lembrei da minha esposa, que estava grávida do meu primeiro filho.”

Traumatizado, Luan decidiu pedir demissão. “Não dava mais. O fogo estava doido, acabando com tudo. Muito intenso, muito perigoso, pau caindo de cima, bicho morrendo. Foi loucura aqui em Araribóia no ano de 2015.”

Passado o susto, o brigadista Guajajara foi convencido a ficar pelo comandante da operação. “Peguei uma folga de sete dias e voltei ao combate. Eu gosto de trabalhar protegendo nossa mata, nosso bioma.” A persistência em ficar lhe rendeu dias depois um dos momentos mais incríveis de sua vida ao se deparar com os misteriosos Awá-Guajá tentando apagar o incêndio no interior da selva em chamas. “Naquele momento, passou um filme na minha cabeça. Já havia visto vestígio deles, mas nunca tinha chegado tão perto.”

O encontro, como não poderia deixar de ser, se mostrou tenso. “Quando eles nos viram, correram para trás e nós também recuamos. No outro dia a gente voltou. Deixamos lá umas foices e dez litros de água.” Ao informar o comando por rádio sobre o encontro, os brigadistas foram orientados a sair do local de helicóptero, seguindo determinação da Funai, que proíbe qualquer contato com indígenas isolados.

Floresta Nacional do Tapajós, 2015

Em fevereiro de 2015, uma enorme nuvem preta sobre a região da Floresta Nacional do Tapajós, no oeste do Pará, não deixava nenhuma dúvida no ar. Potencializados por fortes ventos e uma estiagem sem precedentes, os focos de incêndio se alastraram em áreas de difícil acesso da Flona, destruindo metade dos 549 mil hectares da Unidade de Conservação situada às margens do rio Tapajós.

A Amazônia que já não é mais a mesma

Oswaldo dos Santos Pereira, seu Vavá, líder da comunidade do Branco

Pará

“A floresta, quando queima, depois nasce muito mato diferente, que são mais chamativos de fogo.”

De sua casa, localizada em frente à Flona do Tapajós, Oswaldo dos Santos Pereira, 65 anos, assistiu atônito à densa fumaça que subia aos céus e invadia seus pulmões. “O fogo nasceu lá na beira do rio e veio subindo até varar na BR-163, que liga Cuiabá a Santarém, atrás da Flona. Quando dava três, quatro horas da tarde, ficava tudo tomado de fumaça. Estava difícil respirar.”

Líder da comunidade ribeirinha de Branco há muitos anos, seu Vavá, como é conhecido, recorda: “a Amazônia era uma floresta úmida. Mas de uns tempos para cá parece que o verão está mais quente, mais demorado. Eu tenho uma lembrança de quando era criança, quando chovia mais. Podia passar uns 15 dias, 20 dias sem cair uma gota de água, mas depois chovia de novo.”

Naquele triste ano de 2015, a seca durou um bocado: foram 90 dias de estiagem. Chamado de verão amazônico, que dura normalmente até novembro, o período de estiagem se alongou até março do ano seguinte por conta de mais um forte episódio de El Niño. “Ficamos muito tristes pela floresta. Morreu muita árvore. Ainda hoje, quando dá um vento, elas caem mortas.”

Entrevistado pela nossa reportagem antes do megaincêndio deste ano, seu Vavá já se dizia amedrontado diante da possibilidade de um incêndio pior que o de 2015. “A floresta, quando queima, depois nasce muito mato diferente, que são mais chamativos de fogo. Nasce taboca, nasce cipó, nasce capim, que a gente chama de tiririca. É um capim que corta. Não é bom nem falar uma coisa dessa. O negócio vai ficar bem difícil.”

O colega que não volta mais

Renê Menezes de Freitas, ex-brigadista

Pará

“Só vi quando ele caiu desmaiado. Meu colega veio a óbito. Nunca esqueço dessa cena.”

O ex-brigadista Renê Menezes de Freitas, 28 anos, sobrinho do seu Vavá, sentiu a morte de perto no grande incêndio de 2015. Então novato entre os brigadistas, Freitas combatia o fogo por baixo com motosserras, bombas d’água e abafadores, mas via o incêndio passando no alto pela copa das árvores. “Foi uma experiência impactante e vai ficar marcada na minha vida para sempre. Tinha pena dos animais. Estavam indefesos. Vi muito jabuti morrendo com o pescoço arriado. E um tanto de outros bichos. Veados, cobras, aves, cotias. Até as onças, que são ligeiras, eu dava de cara com elas acuadas atrás das árvores.”

Estressado em um cenário de desespero, o ribeirinho que brincava na Flona quando era criança saía às 4 da manhã para combater as chamas e não tinha hora para voltar. No momento mais dramático de sua vida, o ex-brigadista viu um colega morrer na sua frente sufocado pela fumaça. “Teve um dia que estava com um brigadista chamado Oziel do meu lado. Eu serrando os paus que estavam fumaçando e jogando para onde não tinha mais risco. De repente só vi quando ele caiu desmaiado. Chamei ajuda e o levamos para a viatura, que o conduziu ao hospital. Infelizmente meu colega veio a óbito. Nunca esqueço dessa cena.”

Assunto: Vista de drone de ipê-amarelo florido em floresta amazônica - FLONA Floresta Nacional do Tapajós
Local:Belterra-PA
Data:08/2023
Autor:André Dib

A Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, é campo de estudos para muitos pesquisadores, que estão vendo uma Amazônia modificada, não mais tão resiliente. Entre os motivos estão o desmatamento, a extração seletiva de madeira, o agravamento das mudanças climáticas e a maior frequência dos incêndios. Foto: André Dib

Como produzimos esta reportagem:
Este conteúdo foi produzido pela Ambiental Media em parceria com cientistas da Rede Amazônia Sustentável (RAS).

EQUIPES:

Ambiental Media
Thiago Medaglia – concepção e coordenação jornalística
Fernanda Lourenço – edição
Sibélia Zanon e Luís Patriani – texto e reportagem
Laura Kurtzberg – mapas
Sofia Beiras – design editorial
Marina Martinez – dados
Luiz Iria – ilustrações
Colaboraram: Luís Patriani (reportagem megaincêndios históricos), Sibélia Zanon (reportagem megaincêndio 2023)

Rede Amazônia Sustentável (RAS)
Jos Barlow, Universidade de Lancaster / Universidade Federal do Pará – concepção e coordenação científica
Erika Berenguer, Universidade de Oxford / Universidade de Lancaster – concepção e coordenação científica
Joice Ferreira, Embrapa Amazônia Oriental – coordenação científica
Alex Lees, Universidade Metropolitana de Manchester – coordenação científica

Outros cientistas consultados
Sonaira Silva, Universidade Federal do Acre (Ufac)
Douglas Morton, Laboratório de Ciências Biosféricas do Goddard Space Flight Center, da Nasa
Liana Anderson, Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)

Metodologia da análise
De acordo com a literatura científica, megaincêndios são incêndios florestais que afetam áreas de 10.000 hectares ou mais. Eventos sem precedentes na floresta tropical úmida, eles têm acontecido com maior frequência desde a expansão da fronteira agrícola na região amazônica. A ciência e gestores públicos tentam mapear quando e onde esses megaincêndios ocorreram na Amazônia, de forma a entender seus impactos e desenvolver melhores políticas públicas para evitá-los. A análise está baseada em anos de secas extremas devido a fenômenos como o El Niño e outras anomalias climáticas: 1998, 2005, 2015 e 2023. Focamos em regiões notoriamente afetadas por megaincêndios nos últimos 25 anos, porém é possível que outros megaincêndios tenham ocorrido na Amazônia brasileira nas últimas décadas.

Foto na capa da reportagem:
João Marcos Rosa / NITRO

Coordenação

Financiadores