Ambiental lança o Jor-MCP – tecnologia pioneira para conectar redações a agentes de IA

Sophia Linares e Thiago Medaglia

Sophia Linares e Thiago Medaglia

Revisão editorial de Miguel Vilela e revisão técnica por Jonas Rossi.

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No Brasil, ainda não havia um esforço estruturado para enfrentar um desafio que toda redação no mundo encara hoje: como regular a forma como os sistemas de inteligência artificial usam o nosso conteúdo? Modelos de linguagem já leem reportagens para responder a perguntas, resumir notícias e alimentar agentes de pesquisa – com frequência, com resultados imprecisos ou inventados. Os materiais produzidos por veículos jornalísticos comprometidos com a checagem, o rigor metodológico e a análise cuidadosa de dados acabam sendo usados sem atribuição, sem licença ou remuneração.

Para uma pequena organização de jornalismo climático, a resposta não poderia esperar por soluções vindas das grandes plataformas. A Ambiental atua há dez anos na interseção entre jornalismo, análise de dados e tecnologia, produzindo reportagens investigativas baseadas em evidências científicas e visualizações de dados que tornam informações complexas mais acessíveis. Esse trabalho tem sido reconhecido internacionalmente, mais recentemente no Sigma Awards 2026 – a principal premiação internacional de jornalismo de dados, organizada pela Global Investigative Journalism Network (GIJN). Nesse contexto, a pergunta que fizemos foi: como uma redação independente como a nossa poderia se posicionar nessa nova era da IA, em vez de simplesmente ficar de fora dela?

Oportunidades como o JournalismAI Innovation Challenge, com suporte do Google News Initiative, oferecem, além de recursos financeiros, um espaço para pensar novas soluções. Nossa equipe considerou várias abordagens: um assistente de edição voltado ao jornalismo científico e climático, uma plataforma para criar infográficos com auxílio de IA, entre outras ideias. Mas foi por meio do diálogo entre jornalistas e equipe de TI – algo central na cultura da nossa redação – que surgiu a proposta escolhida.

Nosso engenheiro líder, Jonas Rossi, foi o primeiro a propor a construção de um servidor Model Context Protocol (MCP) para o jornalismo. O MCP é um padrão aberto criado pela Anthropic. Hoje o MCP é adotado por empresas, instituições de pesquisa e órgãos públicos em todo o mundo. Nosso diretor executivo, Thiago Medaglia, desenvolveu a proposta, incluindo seu nome: Jor-MCP.

Thiago Medaglia, à esquerda, diretor-executivo da Ambiental, e Jonas Rossi, engenheiro líder, apresentam o Jor-MCP no Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, no Rio de Janeiro, em maio de 2026.

Um servidor MCP permite a sistemas de inteligência artificial acessar dados de forma estruturada, direto da fonte. Diferentemente de uma consulta a uma página da web – em que a IA precisa processar menus, banners, scripts e outros ruídos –, um servidor como o Jor-MCP entrega apenas o conteúdo solicitado, estruturado para uso por máquinas. O resultado são consultas mais rápidas, com menor consumo de tokens, maior precisão contextual e a possibilidade de incluir metadados de atribuição nos dados entregues aos clientes de IA.

A decisão de aplicar essa arquitetura ao jornalismo parte de uma realidade dura: a queda do tráfego na web e a erosão da monetização baseada em cliques têm deixado os veículos jornalísticos cada vez mais vulneráveis. Nesse sentido, o Jor-MCP se alinha a outros esforços internacionais para tornar menos desigual a relação entre o jornalismo e as empresas de IA.

Iniciativas pioneiras, como o servidor MCP da O’Reilly Media – desenvolvido pela plataforma Miso –, sugerem que essa arquitetura começa a ser testada na prática. Com recursos como a autenticação de usuários, os veículos poderiam condicionar o acesso ao seu conteúdo a contas verificadas, abrindo caminho para o que alguns têm chamado de um modelo de “assinaturas para agentes de IA” e viabilizando potenciais novas fontes de receita.

Até onde sabemos, ainda não houve um esforço estruturado nessa direção no Brasil. Se estivermos enganados, escreva para [email protected] – adoraríamos conhecer outras iniciativas.

Diferentemente de servidores MCP voltados para a apuração ou a checagem de fatos – que ajudam jornalistas a consultar bases de dados externas –, o Jor-MCP foi desenvolvido para que os veículos definam, sob os próprios termos, como disponibilizam seu conteúdo, em um esforço para criar uma alternativa viável e estruturada à raspagem informal de dados.

Demonstração do Jor-MCP em funcionamento no ChatGPT.

Os testes iniciais

Há alguns meses, nossa equipe de TI – com Lucas Alves em engenharia de software, Leonardo Santos Mosca em infraestrutura e DevOps e Rossi à frente do trabalho – começou a investigação para mapear ferramentas, técnicas e a arquitetura do servidor MCP. Depois da fase de pesquisa, construímos uma prova de conceito (PoC), que ajudou a materializar as ideias e permitiu ajustes de direção mais precisos. Algumas escolhas que pareciam certas “no papel” deixaram de fazer sentido na prática.

Uma conversa com Abdullah Enes Gules, um dos criadores do Context7 – um MCP voltado a ajudar desenvolvedores a manter suas ferramentas atualizadas –, ajudou a confirmar uma mudança de direção: precisávamos de um servidor mais leve, que não salvasse históricos e com um número reduzido de ferramentas disponíveis, para que cada consulta consumisse menos processamento. Para organizações pequenas, isso faz uma diferença considerável.

O servidor é capaz de fazer três coisas: buscar conteúdo da Ambiental no site e nos repositórios das nossas investigações de dados; entregar o texto limpo e estruturado de uma reportagem específica; e listar as publicações mais recentes, para que o agente de IA sempre saiba o que é novo.

O código e a documentação estão no GitHub como um convite para continuar essa conversa. Queremos que outras redações testem, encontrem caminhos que talvez nem tenhamos imaginado e depois voltem para contar o que descobriram. Para facilitar uma primeira replicação do Jor-MCP em outra redação, a Ambiental firmou parceria com a Aos Fatos, agência pioneira em checagem de notícias no Brasil. Nossa equipe de TI está dando suporte e orientando a configuração do Jor-MCP.  

Há também a pergunta de como sustentar a comunidade no longo prazo. O Jor-MCP é de código aberto – cada redação implementa e mantém seu próprio servidor, com seus próprios termos de acesso. Mas como sustentar a evolução do código e da documentação para o grupo de usuários do Jor-MCP? Estamos explorando opções, em conversa com outras organizações que enfrentam o mesmo desafio com ferramentas de código aberto para o jornalismo.

Para a implementação do Jor-MCP na Ambiental, o modelo em discussão para a sustentabilidade financeira é parecido com o de muitos serviços de IA hoje: um nível gratuito, com um limite de consultas por mês, e planos pagos para quem precisar de mais volume. O acesso poderia ser autenticado via OAuth – o mesmo protocolo usado quando você autoriza um aplicativo a acessar sua conta do Google Drive –, e cada conexão ficaria associada a um plano e a um limite de uso. Nada disso está definido ainda; são as primeiras hipóteses sobre como a ferramenta poderia, no futuro, se tornar uma fonte alternativa de financiamento para a organização.

Algumas dessas questões sobre sustentabilidade financeira serão respondidas em um relatório detalhado sobre as possibilidades de uso comercial do Jor-MCP que estamos produzindo. No processo, entrevistamos líderes mundiais de outras organizações jornalísticas que estão utilizando o MCP e reportamos como essa tecnologia tem sido usada criativamente para criar novas fontes de receita para o jornalismo.

Nossa pesquisa também resultará em um tool kit jurídico com modelos de minutas de termos de uso e políticas de privacidade, além de um relatório sobre as possibilidades de uso comercial do Jor-MCP. O relatório e o kit jurídico devem ficar prontos em breve e serão disponibilizados no site do Jor-MCP e no GitHub. 

Neste momento, o Jor-MCP é mais uma jornada documentada do que um produto acabado. Mas, assim como fizemos em nossas investigações sobre os impactos climáticos da expansão dos datacenters no Brasil, a Ambiental constrói o Jor-MCP orientada pelos valores que moldam nosso jornalismo: rigor, transparência e interesse público. Acreditamos firmemente que os jornalistas devem continuar a investigar e a noticiar a IA. No entanto, à medida que os sistemas técnicos que influenciam a forma como o jornalismo é distribuído, descoberto e usado pela IA se tornam cada vez mais centrais no ecossistema da informação, o jornalismo também deve participar do desenvolvimento das infraestruturas pelas quais o conhecimento circula.