Proteger florestas é mais eficiente para conservar a biodiversidade e o clima do que restaurar, aponta estudo
Pesquisa mostra que recuperar áreas já desmatadas, como abordagem isolada, é insuficiente para reverter perdas.
Reportagem: Meghie Rodrigues
Fotos: Marizilda Cruppe
Mapas: Laura Kurtzberg
- 17 de setembro de 2026
Perto do ápice do Super El Niño, o estudo feito em mais de 3 milhões de hectares da Amazônia concluiu que a estratégia mais eficiente é a combinação entre proteção de florestas preservadas – com combate ao desmatamento e à degradação – e restauração.
O Super El Niño deve atingir seu pico nos próximos meses, intensificando o alerta climático para a Amazônia. As previsões indicam menos chuva, temperaturas acima da média e maior risco de incêndios florestais. Nesse contexto, um estudo publicado pela Science nesta quinta-feira (17) responde a uma pergunta que está no centro do debate global sobre política florestal, financiamento climático e mercado de carbono: entre as três principais estratégias de conservação de florestas tropicais – evitar o desmatamento, impedir a degradação e restaurar áreas já convertidas – qual entrega mais benefício para biodiversidade e clima ao menor custo?
Os resultados apontam que, se comparada ao combate ao desmatamento e às ações para evitar degradação – como o enfrentamento a incêndios e à extração de madeira –, a restauração florestal é a estratégia com menor benefício para o clima e para a biodiversidade.
Em termos de mitigação das emissões de carbono, evitar o desmatamento, isoladamente, é a ação mais efetiva. Já considerando os benefícios à biodiversidade, a alternativa mais vantajosa é a prevenção da degradação florestal. Mas é a combinação das duas estratégias com a restauração que produz o maior ganho tanto para a biodiversidade quanto para o clima.
“A [prevenção de] degradação sempre foi o filho mais feio desses três e nunca chamou o mesmo nível de atenção em termos de políticas públicas e de investimento”, diz Jos Barlow, coinvestigador principal do estudo e professor de ciência da conservação na Universidade Lancaster. Para o pesquisador, evitar a degradação de florestas é especialmente importante em um contexto em que períodos de El Niño e extremos climáticos estão cada vez mais frequentes e mais fortes como consequência das mudanças climáticas. “O El Niño aumenta as secas na Amazônia e a chance de incêndios florestais. Com a sobreposição desse fenômeno, vai ser cada vez mais difícil conter a degradação por fogo”, adiciona. Fogo que muito frequentemente precede o desmatamento, especialmente na Amazônia.
Segundo a plataforma MapBiomas, quase um quarto do território nacional, o equivalente a 208 milhões de hectares, queimou ao menos uma vez entre 1985 e 2025. Em termos de desmatamento, os números não são muito melhores: entre 1985 e o ano passado, o Brasil desmatou uma área maior que o estado do Mato Grosso – mais de 107 milhões de hectares.
O estudo foi realizado por um grupo internacional de 19 pesquisadores, liderado pela Rede Amazônia Sustentável (RAS), e reúne especialistas de instituições como a Universidade de Lancaster, a Embrapa Amazônia Oriental, o Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), as universidades de Oxford, Cambridge, Manchester Metropolitan e Exeter, a Esalq/USP, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Museu Paraense Emílio Goeldi.
À primeira vista, o resultado pode parecer contraintuitivo: além de recompor a vegetação, a restauração de florestas não reconstitui também a biodiversidade perdida anteriormente? A pesquisadora Erika Berenguer, coautora do estudo, explica que os dados levantados apontam para outra direção. “Em um estudo de novembro do ano passado, mostramos que florestas secundárias são fundamentalmente diferentes das primárias, e até das degradadas, em termos de composição de espécies e características funcionais das árvores”, conta a bióloga, especialista em fogo e pesquisadora da Universidade Lancaster, no Reino Unido.
“Este é um estudo muito interessante porque reforça a ideia de que, antes de se trabalhar com restauração, é fundamental conservar florestas”, diz Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que não participou da pesquisa. A geógrafa conta que, durante muito tempo, a agenda de proteção de florestas teve duas abordagens principais: redução do desmatamento e restauração florestal. “São duas frentes absolutamente importantes, mas é preciso também focar na qualidade da conservação que se faz de modo a impedir a degradação de florestas”, observa.
A pesquisadora Érika Berenguer, coautora do estudo, orienta brigadistas durante um incêndio na Floresta Nacional do Tapajós, na região de Santarém, Pará. Evitar queimadas e extração madeireira é a ação mais eficiente para preservar a biodiversidade da floresta.
Mudanças entre 2010 e 2020
A análise comparou a efetividade das três estratégias de conservação florestal – combate ao desmatamento, prevenção de danos por incêndios e extração madeireira e restauração de vegetação – em termos de custos e benefícios para a biodiversidade e mitigação das mudanças climáticas. A equipe de pesquisa analisou áreas florestadas, desmatadas e degradadas nos municípios de Paragominas e Santarém, no Pará, em um trecho que soma mais de 3 milhões de hectares, entre 2010 e 2020. Por serem zonas consolidadas nas três intervenções analisadas, os dois municípios se mostraram ideais para o estudo.
Para Barlow, Paragominas e Santarém também são relevantes porque, apesar de ainda enfrentarem desmatamento e degradação florestal, têm áreas disponíveis para restauração. “Queríamos estudar regiões que exemplificassem de maneira bem clara a fronteira [de desmatamento] da Amazônia, onde as três intervenções podem ser implementadas no chão”, adiciona.
Barlow e seus colegas analisaram 381 localidades em áreas públicas e privadas, registrando 467 espécies de pássaros e cerca de 1100 espécies de árvores para medir benefícios em termos de biodiversidade. Para estimar os estoques de carbono acima do solo, a equipe mediu árvores de florestas em diferentes condições de conservação – vegetação primária, secundária e degradada. Os pesquisadores então relacionaram esses dados a algumas características da paisagem, como proporção e idade das florestas secundárias, histórico de degradação florestal e distância até as bordas da mata.
“Então, pegamos esses dados e treinamos um modelo para estimar como a biodiversidade e os estoques de carbono seriam em 2020 após diferentes estratégias simuladas”, conta Leonardo Miranda, coinvestigador principal do estudo e pesquisador associado na Universidade Lancaster. “Pegamos os dados de campo de 2010 e tudo o que aconteceu nessas áreas dali até 2020 usando dados do [projeto] MapBiomas, e começamos a montar alguns cenários-base. Se todo o desmatamento que ocorreu tivesse sido evitado, como estaria essa paisagem?”, explica.
Miranda queria entender o que aconteceria com aquelas áreas em 2020 partindo de três cenários diferentes: sem o desmatamento ocorrido entre 2010 e 2020, sem os distúrbios florestais mapeados (em especial fogo e extração de madeira), e com restauração de acordo com as normas do Código Florestal. O código prevê que propriedades privadas na Amazônia possam ter no máximo 20% de sua área desmatada, com 80% destinada a ser preservada como Reserva Legal – exceto para estados com mais de 65% do seu território ocupado por unidades de conservação públicas e terras indígenas, que podem reduzir a exigência de Reserva Legal para até 50%. “Também agrupamos as estratégias de formas diferentes para estimar quais seriam seus efeitos combinados”, adiciona Miranda.
A modelagem mostrou que, em comparação com dados reais de 2020, eliminar incêndios e extração madeireira teria evitado 68% das perdas em biodiversidade ocorridas entre 2010 e 2020 e diminuiria em 47% as perdas de carbono observadas. Em um cenário com zero desmatamento, a perda de biodiversidade seria 28% menor e a perda de carbono 61% menor. Já em um cenário com restauração, os resultados ficariam em 6% e 15%, respectivamente.
Segundo o estudo, o cenário ideal, de fato, é o que combina as três estratégias. Nesse caso, os ganhos de biodiversidade seriam de 22% acima da linha de base. Estoques de carbono teriam um ganho de 42% também acima da linha de base.
A ideia de linha de base ajuda a explicar os ganhos tão significativos das estratégias combinadas. No caso das três intervenções isoladas, o cálculo é sobre o que se deixaria de perder em 2020 se comparado com o cenário inicial de 2010. “Quando olho para o cenário isolado de evitar desmatamento, teria evitado 28% da perda de biodiversidade observada no período, ou seja, não chega nem perto do que tinha de biodiversidade inicialmente em 2010″, explica Miranda. “No caso das três combinadas, não só estamos falando do que se deixa de perder, mas do que se ganha de fato. São 22% e 42% acima dos níveis iniciais de 2010 – como se não tivéssemos perdido nada entre 2010 e 2020 e tivéssemos ganhado mais benefícios além disso. Estamos falando de ganho líquido”, explica.
“Não existe uma única solução capaz de responder à crise das florestas tropicais. Precisamos proteger as áreas remanescentes, impedir que elas sejam degradadas e restaurar territórios estratégicos”, reforça Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e uma das autoras da pesquisa. “É necessário integrar as agendas, por exemplo, incluindo brigadas para evitar incêndios florestais nos projetos e programas de restauração. O estudo oferece uma base para decidir onde e como combinar as diferentes ações de maneira eficiente”, diz.
O assistente de campo Joni Oliveira sobe em uma escada para avaliar uma árvore na Floresta Nacional do Tapajós, na região de Santarém, Pará. A medição e identificação de espécies de árvores foi crucial para os cálculos de estoque de carbono porque a capacidade de armazenamento de cada uma depende da densidade da madeira.
Trabalho de uma década
Foi um caminho longo até chegar aos números. “Na época, coletamos os dados e produzimos muitos outros estudos que estão publicados para demonstrar os impactos do fogo. A ideia desta pesquisa atual foi integrar e demonstrar os impactos de maior escala para investimentos de conservação”, diz Barlow. “A comparação entre o que poderia ter acontecido se as políticas tivessem funcionado em um cenário ideal é muito mais impactante do que simplesmente avaliar o que aconteceu. E o único cenário que realmente precisamos criar do zero foi o de restauração”, explica.
Erika Berenguer conta que, para ela, a analogia sobre o longo caminho foi literal. Para estudar as áreas de amostragem – cada uma com 250 metros por 10 metros, ou um quarto de um campo de futebol – era preciso estar distante pelo menos cem metros da borda de floresta ou estrada mais próxima. A uma distância menor do que isso, os dados poderiam ser comprometidos pelos efeitos de borda. “A borda é onde a temperatura é mais alta, a umidade é mais baixa, as espécies são diferentes”, conta. Era preciso, também, que cada campo de amostra estivesse ao menos a 1,5 quilômetro um do outro, para não correr o risco de pseudorreplicações, ou contar uma mesma área de estudo duas vezes. “500 metros de distância entre um plot e outro é quase nada quando se fala em áreas de floresta. Se estivéssemos falando de bactérias, por exemplo, seria totalmente diferente, como ir do Brasil à China”, explica.
Trecho de floresta ao lado de plantação na região de Santarém. Para coletar amostras dentro de terras privadas, os pesquisadores precisaram entrevistar donos de quase 500 propriedades.
Caminhar 1,5 quilômetro mata adentro, no entanto, não é o mesmo que fazer trilha em uma montanha. “Houve lugar em que precisávamos andar uns cinco quilômetros para chegar porque o caminho era cheio de obstáculos e não dava para ir em linha reta”, lembra Berenguer. Para estimar o carbono na superfície, ela media a circunferência de árvores e um colega botânico ajudava na identificação de espécies, especialmente as menos comuns. “Às vezes era preciso cortar galhos na parte alta de árvores que não dava para identificar. Para as árvores muito altas, os assistentes de pesquisa atiravam uma pedra – de um tipo de rocha específico para isso – com um estilingue bem lá para o alto para fazer cair esse galho”, lembra ela. “Eles são incrivelmente bons nisso.”
A identificação de espécies de árvores foi crucial para os cálculos de estoque de carbono porque a capacidade de armazenamento de cada uma depende da densidade da madeira. “Quanto mais denso o tecido lenhoso, mais carbono existe ali”, conta Berenguer.
O pesquisador Alexander Lees, da Universidade Metropolitana de Manchester e coautor do estudo, coordenou o levantamento das aves. Esse grupo da fauna ocupa um papel singular como indicadores da saúde dos ecossistemas e, por isso, é essencial compreender suas respostas às mudanças na cobertura e no uso da terra. “Registramos várias espécies ameaçadas em nível global e/ou com distribuição restrita; quase todas estavam confinadas a florestas primárias em bom estado de conservação”, diz Lees.
Em unidades de conservação, o processo era simples: bastava chegar ao campo e fazer as observações. Mas as áreas de amostra dentro de propriedades privadas exigiram muito mais cuidado e conversa. A equipe precisou entrevistar donos de quase 500 propriedades. “Cheguei à casa de um produtor rural ainda na madrugada e saímos só na hora do almoço para termos as entrevistas”, relata Joice Ferreira.
Igarapé Moju, na região de Santarém, Pará. A combinação das três intervenções é a que traz mais resultados. “Não só estamos falando do que se deixa de perder, mas do que se ganha de fato. São 22% [biodiversidade] e 42% [carbono] acima dos níveis iniciais de 2010”, diz o pesquisador Leonardo Miranda.
Valor da floresta em pé
Para Leonardo Sobral, diretor de florestas e restauração florestal do Imaflora, a dificuldade na pesquisa apontada por Berenguer é um sintoma. “Por causa da especulação imobiliária, a floresta vale menos em pé do que desmatada. Mas se olharmos do ponto de vista financeiro, a floresta deveria valer mais em pé”, diz Sobral. “Por isso é tão importante ter mecanismos e incentivos financeiros para a manutenção dessa floresta de pé. Até porque recuperar o que se perdeu é um processo bem demorado.”
Para Sobral, que não participou do estudo, faz sentido que, isolada, a restauração florestal tenha rendido menos benefícios se comparada à contenção da degradação e do desmatamento. “Em poucos anos, não é possível ter o mesmo nível de biodiversidade de uma floresta nativa. É um processo que leva décadas, a depender do bioma”, conta.
Por outro lado, a restauração florestal pode ter ganhos importantes não computados no estudo. “O fluxo hídrico de uma bacia hidrográfica que perdeu a cobertura vegetal tende a ficar completamente desequilibrado”, explica Sobral. “Ali, a restauração é estratégica e muito importante para evitar que populações fiquem sem água”.
Segundo Gabriela Zangiski, pesquisadora sênior da Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), funções ambientais diferentes pedem instrumentos financeiros diferentes. Ela lembra que políticas de combate ao desmatamento e de prevenção de degradação florestal dependem bastante de recursos públicos, subvenções e pagamentos por resultados, já que a conservação de carbono, biodiversidade e outros serviços ecossistêmicos não gera, necessariamente, receita privada direta.
A restauração, por outro lado, “pode combinar esses recursos com capital privado quando houver receitas associadas a carbono, sistemas produtivos ou outros usos sustentáveis da terra”, explica Zangiski, que não participou do estudo. “O desenho da arquitetura de financiamento deve refletir essa complementaridade, com instrumentos distintos para conservar, evitar novas perdas e recuperar áreas degradadas.”
No campo das políticas públicas, os resultados do estudo dialogam com o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e a aplicação do Código Florestal. Os autores defendem que prevenir incêndios e extração ilegal de madeira, garantir que a exploração de madeira autorizada cumpra as regras de manejo sustentável, reduzir o uso do fogo em áreas rurais, sempre que possível, e fortalecer brigadas locais se tornem parte central das estratégias de clima e biodiversidade.
Embora concentrado em duas regiões da Amazônia Oriental, a pesquisa apresenta implicações para outras florestas tropicais submetidas simultaneamente ao desmatamento, ao fogo, à exploração de madeira e à expansão agropecuária. “A restauração é essencial nos locais onde se verificou a perda de florestas em grandes áreas. Caso contrário, estamos a colocar dinheiro em um balde furado: restaurando florestas em uma área enquanto outras estão sendo degradadas e perdidas. O que precisamos fazer com urgência é integrar essas agendas políticas, garantindo que a restauração florestal ande de mãos dadas com a proteção das florestas que ainda temos”, avalia Joice Ferreira.
Como produzimos esta reportagem:
Este conteúdo foi produzido pela Ambiental Media em parceria com cientistas da Rede Amazônia Sustentável (RAS).
Colaboraram
Ambiental Media
Thiago Medaglia – concepção e coordenação jornalística
Fernanda Lourenço – edição
Miguel Vilela – edição
Rede Amazônia Sustentável (RAS)
Leonardo Miranda – principal autor do estudo, Universidade de Lancaster
Alexander C. Lees – Universidade Metropolitana de Manchester / Universidade Cornell Erika Berenguer – coautora do estudo, Universidade de Oxford / Universidade de Lancaster
Joice Ferreira – coautora do estudo, Embrapa Amazônia Oriental
Jos Barlow – coautor do estudo, Universidade de Lancaster / Universidade Federal do Pará